Cinema

Crítica | Robin e Marian

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De Richard Lester, Robin e Marian adapta a fase mais velha da clássica história do príncipe dos ladrões que roubava dos ricos para dar aos pobres: Robin Hood. Seu começo se dá em meio a uma paisagem estranha onde ocorrem alguns eventos aparentemente desconexos que resultam numa conversa entre um Robin já cansado (Sean Connery) e um sujeito caolho. Nesse início, em forma de epílogo, se nota que o antigo contraventor mudou, envelheceu, sofreu e teve de se submeter ao rei Ricardo.

Ricardo Coração de Leão é executado por Richard Harris em um performance bastante elogiada na época. Os momentos em que ele contracena com Connery são carregados de uma química notável e registram o quão frouxo e melancólico pode ser um reinado. Seja em seus últimos momentos com os súditos ou no cortejo fúnebre do monarca se percebe a tristeza tanto nos que fizeram parte da nobreza, quanto dos plebeus que viam à distância a decadência do governo.

Lester apresenta uma face nada nobre dos personagens. Robin, como dito antes, não é mais o mesmo, seja pelos fios brancos de sua barba e ausência de cabelos em sua cabeça ou por seu espírito domado e divergente dos tempos em que saqueava a monarquia para alimentar a plebe. O retorno à floresta que antes chamava de lar se dá em um momento igualmente sem glórias, e ele é tão desencontrado com a realidade que mal percebe estar atacando seus antigos amigos. Boa parte dessa construção de tristes figuras se dá pelo esforço do elenco, que reúne Connery fazendo a figura de um homem de passado poderoso e que vê os anos tirando-lhe a força e pujança, como também por meio do restante do elenco, com a nova versão de Marian de Audrey Hepburn, a personagem mais bem explorada fora o famoso ladrão, ou com as participações de Robert Shaw, Ian Holm e Bill Maynard.

A filmografia de Lester se divide em fases bem distintas, a primeira em musicais onde acompanhava os Beatles, posteriormente focado em dramas de época, e por fim, sua fase mais decadente, quando substituiu Richard Donner em Superman II e Superman III. Essa obra é de sua fase mais elogiada, e o que se vê é um cuidado acurado por trazer uma carga dramática correspondente ao teatro clássico britânico.

Robin e Marian é uma obra tão dedicada a desconstrução da mitologia que a primeira flecha desferida se dá apenas com quase uma hora de exibição. A direção de arte de Gil Parrondo ajuda a trabalhar essa desmistificação. O resultado final é um filme melancólico que reflete sobre envelhecimento e a distância entre pessoas que se amam, ainda que características básicas como o orgulho e honra sigam intactos.

 

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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