Cinema

Crítica | Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei

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Assistir Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei hoje provoca no espectador uma sensação estranha, seja pelo seu formato que não condizia com sua época, 2008 - que aliás influenciaria o estilo da atual cena documental brasileira especialmente no quesito edição, ou por seu  tempero de teoria da conspiração, esse sim condizente com o fim dos anos 2000. O longa-metragem busca redimir a figura de Wilson Simonal, um dos maiores cantores brasileiros da história, acusado de ser informante durante à Ditadura Militar, sendo depois apagado da história que ajudou a construir dentro da música popular brasileira.

Cláudio Manoel e seus codiretores Calvito Leal e Micael Langer cravam bem a identidade do cantor, os depoimentos de Chico Anysio, Tony Tornado, Luís Carlos Mielle, Sergio Cabral Pai, Nélson Motta, os filhos Simoninha e Max Castro, e até membros do Pasquim como Jaguar e Ziraldo ajudam a montar quem ele era e o peso que  tinha sobre a música.

O documentário passa bem pelos momentos históricos da vida de Simonal, como o show do Maracanãzinho e a polêmica sobre o número de pessoas que estavam  na abertura do premiado Sergio Mendes, um fala que tinham 30, outro 40, um terceiro afirma que eram 50 mil, essa sacada aliás é muito boa, pois se torna um comentário metalinguístico, de que cada fala sobre o cantor sofre com memória afetiva. Simonal foi grandioso, dominador de multidões e maestro do povo, até de forma literal. Inebriante, sedutor, provocador e marrento, a pilantragem não morava só na música e estilo, mas também no seu estilo de vida.

O filme não convence no que diz respeito a sua participação como informante do regime. O filme não consegue estabelecer sua culpa, nem que foi manipulado, muito menos ajuda a fomentar a teoria de que ele era só um sujeito ingênuo e impulsivo. Na época de seu lançamento, essa foi a principal crítica a esse respeito, talvez a recepção de público e crítica hoje fosse diferente, afinal boa parte da opinião geral a respeito de documentários não passa necessariamente pelo convencimento que as obras produzem, e sim pela gama de assuntos que suscita, e nesse ponto, o filme é riquíssimo e dá voz a um personagem fantástico de nossa história e identidade nacional.

A cena de Simonal cantando, já idoso, magro, com rosto fino e debilitado era o retrato da decadência de um país mal resolvido. Sendo informante ou não, Simonal não foi anistiado, enquanto membros do próprio regime, inclusive torturadores, convivem normalmente sem qualquer peso pelo que fizeram ou deixaram de fazer, enquanto Simonal foi apagado de nossa história. Um registro belo e necessário.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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