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Resenha | Blueberry: Amargura Apache

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Baseado no clássico herói do faroeste de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (Moebius), Blueberry: Amargura Apache é uma história de aventura do tenente e herói título Mike Blueberry, com arte compartilhada por Joan Sfarr e Christophe Blain. A história é um western escapista, bastante direta e tradicional, mostrando uma aventura do agente da lei e se utilizando do cenário desértico e montanhoso os cânions colossais quase como um personagem.

Blueberry testemunha um crime de intolerância, cujas circunstâncias são estranhas, envolvendo o assédio a duas mulheres nativo-americanas — parentes de um apache — e um assassinato passional que claramente não tem as mesmas intenções vis dos estupradores. Em poucas páginas já se estabelece a simpatia do personagem central aos navajos, as disputas socio-ideológicas entre os locais e a coisificação dos nativos.

Mesmo sendo curta, a história possui um ar bastante melancólico em seu texto, sobretudo nas conversas entre os homens brancos que não são tão intolerantes. As conversas entre os policiais são longas, eles parecem ter as palavras travadas na garganta, possivelmente para disfarçar a vergonha de se discutir o futuro e o presente de todas as outras pessoas com menos privilégios e menos liberdade de viver, como são os nativos e as mulheres neste retrato.

Esta versão da editora Faria e Silva é bastante caprichosa, com um acabamento simples e cuidadoso tanto na parte externa do gibi quanto no trabalho interno. O papel ajuda a valorizar o traço característico, as cores e as paisagens do oeste selvagem.

As tramas secundárias são ordinárias e desimportantes, mas a história tem seus méritos, especialmente quando recicla os clichês de herói e ressignifica-os. Essa desconstrução casa bem com o traço simples das expressões que Blain coloca aqui, lembrando os personagens da Era de Ouro dos quadrinhos norte americanos.

As personagens que aparecem na história são humanas, tem dilemas adultos que, mesmo sem se aprofundar demais dão conta de uma complexidade de fácil entendimento e igualmente fácil associação com dilemas atuais. Chega a ser curioso como o tom do quadrinho muda quando há confrontos. Os embates são violentos e sanguinários, a história mostra o quão cruel e agressivo era esse tempo. Amargura Apache é uma boa história de introdução a novos leitores, e promete dar continuidade a essa nova versão do herói que reverencia o clássico, com novas camadas de complexidade e discurso.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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