Cinema

Crítica | Marcado Pela Sarjeta

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O título em inglês (‘Alguém Lá em Cima Gosta de Mim”), além de fazer mais sentido, glorifica ainda mais a poderosa atuação de Paul Newman, o “príncipe dos olhos azuis”, ainda moço em Hollywood. Na pele do boxeador Rocky Graziano, Newman não só impulsionou como definiu sua carreira, chegando ao máximo do estrelato – ainda nos anos 50! Mesmo alguns anos depois de Uma Rua Chamada Pecado, e com um Marlon Brando furioso rasgando sua camisa ainda muito fresco na memória do público, Newman transformou Graziano num símbolo de glória, queda e volta por cima de uma besta errante que não se encaixa no sistema, e só arruma confusão. Um moleque paupérrimo e criado na violência urbana dos subúrbios americanos, que adulto e perdido nas ruas sujas de Nova York, a sua resposta imediata para o mundo é roubo, morte, briga e cadeia – foge, e volta, foge, e volta.

Um ciclo de penitência sem fim. Marcado pela Sarjeta é o verdadeiro Rocky: Um Lutador, mas sem o apelo comercial nem a popularidade do clássico de Sylvester Stallone. Além disso, é a segunda melhor obra de boxe de Robert Wise, perdendo apenas para o obrigatório Punhos de Campeão, de 1949 (Assistam!). Wise controla o drama aqui magistralmente, nos fazendo respirar a tensão que envolve o dia a dia de um sobrevivente, numa selva de pedra que o quer morto. Um gato selvagem saltando dos telhados, sem amigos nem futuro, que não acha lugar nem nas forças armadas dos Estados Unidos, e cuja mãe está cada vez mais cansada do filho rebelde que tem. Assim, o filme se prova dinâmico, e escalona os passos de Graziano como um purgatório infinito até metade da obra, quando este finalmente conhece uma mulher que, com um sorriso, ativa o lado civilizado desse “leão de quintal”.

Sempre um grande cineasta, o autor de A Noviça Rebelde e Desafio do Além não tinha medo de ser versátil, ou muito menos de usar o seu Cinema para expor as contradições, e dificuldades das relações humanas em um ambiente urbano, e de conflitos iminentes. Pode-se dizer que Marcado pela Sarjeta seja um dos seus principais expoentes neste sentido, principalmente na mudança do foco de Graziano: antes duelando com homens e suas leis, e agora, com uma mulher que vira o seu mundo de cabeça para baixo, com a esperança agora real de ser feliz, no seio de uma família normal, mas com um passado que irá assombrar o ex-fora da lei por seus crimes, e suas vítimas (só Deus perdoa). Mas o que fica para a eternidade, mesmo, são as cenas tempestuosas de total entrega emocional de Newman. Um triunfo de sua geração, num dos seus melhores trabalhos.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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