Cinema

Crítica | Voltei!

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Voltei! é o novo longa-metragem da dupla de diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio, os mesmos que fizeram Ilha e Café com Canela. A trama, situada em 2030 dá conta de duas irmãs, Alayr e Sabrina (Wall Diaz e Mary Dias respectivamente) que passam a noite aguardando as notícias de Brasília via rádio, a espera do julgamento de um político corrupto e maléfico. Em meio a essa espera, surge Fátima (Arlete Dias), a irmã mais velha das duas, que era dada como morta, mas que não poderia ficar de fora de uma data tão esperada por ambas.

O maior equívoco do filme certamente não é sua premissa. Aqui, o país sofre com apagões, ausência de luz, escassez de tudo, inflação e maus governos em diversas esferas. É uma evolução do quadro de 2020-21 do Brasil, e isso é até uma boa ideia, o problema é o modo que o filme ocorre.

Afirmar que as atuações são engessadas não dá a real dimensão do quanto o filme é artificial,  há tentativas de fazer com que os diálogos soem naturais, mas o roteiro é expositivo e primário e a tentativa de fazer uma critica social em cima das questões complicadas e flagrantes da atualidade brasileira soam como deboche com o povo, e não como um grito a favor do proletário e do trabalhador. O texto básico é mal construído, irreal, artificial como uma conversa entre pessoas desconhecidas e não como uma conversa entre irmãs.

O filme tem a intenção de prender a atenção do espectador apenas com os diálogos, e pelo fato de ter praticamente um cenário só, a casa das irmãs, isso é realmente necessário. No entanto, como as atuações são amadoras e como as conversas não parecem ditas por pessoas de verdade tudo parece mecânico, e isso é grave mesmo que seja essa uma realidade com elementos fantásticos.

O filme até possui uma ruptura narrativa com mais ou menos 25 minutos, mas toda a duração dele segue o mesmo tom, de conversas que jamais ocorreriam entre parentes tão próximos e íntimos. Uma irmã não precisaria falar com a outra todas as mesmas histórias de sempre com tantos detalhes quanto é falado aqui, é como se o espectador fosse um ente invisível, que orbita Alayr, Sabrina e Fátima, mas isso jamais é assumido se o fosse, talvez houvesse algum charme no longa. Voltei! é histriônico, não consegue esconder sua falta de qualidade narrativa, tampouco as atuações peculiares, suas tentativas de apelo ao popular são vergonhosas, vazias e risíveis.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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