Cinema

Crítica | Os Dez Mandamentos (1956)

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O cinema de Cecil B. DeMille é composto basicamente de filmes do gênero conhecido antigamente como épico, onde personagens fortes e heroicos tinham suas jornadas contadas. Sua versão de 1956 para Os Dez Mandamentos é uma refilmagem do seu filme homônimo e certamente é o mais conhecido e elogiado de sua carreira, e essa alcunha não se deu à toa, já que a adaptação do conto bíblico a respeito de Moisés é grandiosa, não só pela potência da história do libertador dos judeus, mas também pelo fato de ser Charlton Heston a vivê-lo – no auge de seu popularidade – além do orçamento vultuoso acompanhado de uma construção visual absurdamente grandiosa e bem feita.

O roteiro é adaptado dos livros Prince of Egypt, de Dorothy Clarke Wilson, Pillar of Fire, de Rev. J. H. Ingraham e On Eagle's Wing, de Rev. A. E. Southon. A parte política do Egito, como o nome dos faraós vem da fusão desses três livros, além dos coadjuvantes que não tem destaque nos livros iniciais do Antigo Testamento.

Da parte dramática, se ouve uma narração incômoda e expositiva, fruto do que era comum ao cinemão dos  anos cinquenta, seu conteúdo aborda o domínio dos homens sobre a Terra após a historia de Adão, onde se resume o Gênesis, para logo depois mostrar a civilização egípcia como a mais evoluída, e com o barbarismo como norte, decidindo acreditar na lenda do escolhido que libertaria os hebreus.

A produção era soberba, os cenários enormes e suntuosos, com muitos figurantes diferentes e coloridos entre si e um cuidado ao mostrar outros povos lidando com o faraó e seus subordinados, mas mesmo assim se notam alguns elementos que não casam com um filme tão grande, como o exemplo da cena que mostra a chegada do pequeno Moisés às margens do Rio Nilo, com meninas de pele branca e belas feições, que claramente não nasceriam no ambiente árido do Egito. São modelos fotográficas, e perceber isso é quase tão flagrante quanto o artifício utilizado no filme produzida pela Penthouse, Calígula, e fica lado a lado com outro clássico contemporâneo, Cleopatra, de Joseph L. Mankiewicz no sentido de trocar fidelidade histórica pela beleza estética condizente com a época.

O roteiro é bastante básico e estabelece desde o primeiro momento a rivalidade de Ramsés II (Yul Brinner) com o Moisés de Heston, seja por conta do trono ou pela promessa de desposar Nefertite (Anne Baxter). O triângulo amoroso é mostrado de forma expositiva, assim como a predestinação do bravo Josué (John Derek), como parceiro, mesmo antes dele se identificar como descendente dos escravos. Fato é que desde o início, Moisés age como o “bom opressor”, sendo bem mais tolerante com a dor dos escravos do que os próximos de si. Ele defende Josué quando ele diz que quer ser livre, mas não hesita em mandar milhares de escravos levantarem monumentos a Seth, mesmo que a maioria deles possa simplesmente morrer.

Da parte técnica, a qualidade varia bastante em efeitos especiais. Para a época era de fato deslumbrante, na remasterização, as cenas com chroma key funcionam melhor quando acontecem à noite, com os cenários vulcânicos. Já pela manhã, no deserto os cenários casados com as pessoas ficam bastante artificiais, mas nada que tire o espectador da atenção à trama. A dramaturgia se desenrola lentamente, como era comum ao cinema nessa época.

DeMille tem escolhas sábias ao abordar o encontro do futuro profeta com Jeová. A descrição bíblica dá conta de que as feições de Moisés mudaram, e o penteado e a barba de Heston aparecem com tons mais grisalhos para referenciar essa mudança. O trabalho de restauração faz com que as cores fiquem ainda mais vivas, fato que favorece demais o trabalho do cineasta e sua equipe, além de também tornar a música de Elmer Bernstein algo ainda mais grandioso. Evidente que nem todos os efeitos especiais mantém-se com o apuro visual nos tempos atuais, mas ainda assim a abertura do mar e as cenas que seguem a partir daí ainda causam espanto.

Os Dez Mandamentos é grandioso, mesmo em seus momentos finais, quando o profeta recebe a palavra de Deus, com o povo se corrompendo em torno da idolatria. O único senão mora no fato de que Moisés é um personagem sem defeitos ou nuances, é o belo e perfeito herói incapaz de errar, e ainda que a Bíblia o trate como um homem honrado, ele não é infalível e o próprio Antigo Testamento demonstra isso. No mais, o tom épico dos momentos derradeiros justifica a pressa com alguns dos plots, incluindo a pouca participação dos irmãos do protagonista. Heston concentra em si toda a complexidade do filme, e entrega uma performance apoteótica, mesmo que tenha poucos tons em si.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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