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Resenha | Batman: O Último Cavaleiro da Terra

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Assim como Zack Snyder, Scott Snyder divide opiniões. Há quem goste e há quem não goste de seu trabalho à frente dos roteiros das histórias do Batman. A principal queixa é a de que falta fôlego nas suas histórias, que se desenvolvem bem, mas não entregam finais à altura do que foi contado. Pois bem, O Último Cavaleiro da Terra é alardeada como aquela que poderia ser a última história da vida do Morcegão.

Publicada em três edições, a minissérie começa com um jovem Bruce Wayne despertando no Asilo Arkham e sendo informado por Alfred e por um psiquiatra de que toda a sua vida tinha sido uma grande ilusão provocada por um coma de vários anos resultado de um colapso nervoso que ocorreu após Bruce ter assassinado seus próprios pais. Logicamente que Bruce não acredita naquilo e promove uma revolta dentro do hospital, derrotando um a um que resolve ficar no seu caminho. Ao chegar no último andar, Alfred o informa de que estão alguns anos no futuro e que nada do que conhecia existe mais. Após um abraço emocionado, Bruce segue seu caminho busca da verdade. Saindo dali, o Morcegão se depara com o Coringa, na verdade, sua cabeça preservada em uma pequena redoma. O vilão acorda e dali partem em direção à Gotham. Bruce descobre que aquele mundo pós-apocalíptico é governado com mão de ferro por alguém chamado Ômega.

A primeira edição da história estabelece muito bem as bases daquele mundo, introduzindo personagens e os contextualizando. Nenhum deles aparece ali somente pelo fan service, todos tem uma razão para estar ali e o mais importante, fazem a história andar. Snyder ainda inclui uma intrigante trama paralela ocorrida algum tempo antes do evento apocalíptico, trama essa que em nenhum momento tira a atenção do leitor, pelo contrário, o torna cada vez mais investido na história. Porém, a grande sacada fica no uso do Coringa como narrador. Tal qual como um Virgílio bem humorado acompanhando um Dante vestido de morcego, o Palhaço do Crime é o guia na viagem para aquele inferno.

Entretanto, a partir da segunda edição as coisas vão ficando um tanto apressadas. O roteiro de Snyder começa a andar a passos largos para o final, o que faz com que fatos e locais que renderiam bons e bizarros momentos sejam mencionados de forma breve, o que frustra um pouco o leitor, tendo em vista que despertam tremenda curiosidade de ver tudo aquilo retratado de alguma maneira. Sem falar na Gotham City distópica com ares de mega prisão que merecia mais atenção e desenvolvimento. Essa pressa aumenta na terceira edição, tendo em vista que uma complexa operação é executada de forma quase que intuitiva pelos personagens envolvidos. Porém, o plot twist sobre o vilão Ômega e suas motivações, além da brutal batalha final entre Batman e ele satisfazem o leitor, fazendo com que a experiência seja bem positiva ao final.

Um ponto muito interessante a ser destacado é o tratamento que Snyder dá a vários personagens que desfilam na história. Os rumos de Lex Luthor e Superman são bem melancólicos, principalmente o de Luthor. Ver um astuto vilão sucumbir à própria megalomania tal como acontece aqui chega a ser comovente. A Mulher-Maravilha também ganha um tratamento bem interessante e funciona como uma das peças centrais para a trama andar e a Corte das Corujas ganha contornos surpreendentes. Já o destino do Flash é um dos mais tristes e bizarros que já apareceram nas histórias em quadrinhos. Tudo isso mencionado acima é muito bem retratado pela arte de Greg Capullo, ainda auxiliado por FCO Plascencia e Jonathan Glapion. Percebe-se a sintonia entre o roteirista e a equipe de arte para deixar todo aquele mundo e os personagens visualmente chocantes, porém sem que haja distorção de suas principais características.

Enfim, O Último Cavaleiro da Terra é uma saga muito boa com uma versão interessante do Batman. Entretanto, infelizmente fica a sensação de que após uma introdução das mais intrigantes, o miolo da história foi apressado para que o épico final chegasse logo. Antes que eu me esqueça, o epílogo pode parecer absurdo, mas é coerente dentro do que foi apresentado.

Bernardo Mazzei

Advogado, mineiro, Flamengo até morrer, roqueiro doido, cinéfilo e recaído no vício em quadrinhos. Só chuta de trivela e sonha em trabalhar na polícia de Los Angeles pra poder gritar "LAPD! FREEZE, MUTHAFUCKA!".
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