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  • Review | Barry – 2ª Temporada

    Review | Barry – 2ª Temporada

    A segunda temporada de Barry começa com um título de capítulo ótimo, The show must go on probably, não só pela referência teatral básica que o show deve continuar, como também dá vazão ao season finale da temporada anterior. Bill Hader continuar desempenhando o homem em conflito, e todos os roteiros que ele e seu parceiro Alec Berg produzem são baseados nisso.

    Uma das tramas secundárias da primeira temporada se desenvolve ainda mais, a antiga rivalidade entre os bolivianos e os chechenos se finda, e seus líderes, Cristobal (Michael Irby) e NoHo (Anthony Carrigan) se tornam parceiros. O roteiro antecipa que começará a utilizar experiências dele como exercícios de “improviso”, e isso é só uma das demonstrações do quanto esse ano será muito mais nonsense que o anterior. Hader consegue brilhar muito nas piadas físicas, e isso casa bem com sua faceta mais calada e atrapalhada.

    Ao mesmo tempo que Barry tem um estalo de que na sua preparação para papéis se identifica como um assassino frio, há também a percepção de que as travas que a maioria dos intérpretes têm, inexistem nele, pois a maioria das fortes emoções buscadas na hora de montar um personagem ele já viveu de maneira literal. A escolha por substituir as ilusões de uma vida adocicada pelas lembranças que o fizeram aderir a função de matador de aluguel são ótimas, ajudam a ressignificar o personagem e o aproximam ainda mais da história em quadrinhos, Justiceiro: Nascido Para Matar, de Garth Ennis , além de fazer com que ele pareça o anti-herói de De Volta ao Jogo, como um John Wick menos sério e com mais problemas existenciais.

    Carrigan e Root estão hilários e exploram um tipo de humor baseado no desespero e falta de opção de vida, cada um a seu modo, e acabam compensando de certa forma o modo anestesiado que Barry tem sofrido. Hader por sua vez adere mais camadas ao personagem que criou com Berg, e o fato de dirigir menos episódios o ajuda nessa composição. Uma das questões mais bem trabalhadas aqui é a ojeriza que Barry desenvolve por matar, e o modo como até isso é subvertido beira o sensacionalismo, mas também muito bem encaixado. O desfecho é violento e repleto de um espírito vingativo inexorável, onde seus antigos aliados se mostram capazes de ceder à sua vaidade, onde o anti-herói encontra seu velho eu e vê que sua nova vida dificilmente seguirá a mesma.

    https://www.youtube.com/watch?v=ir1_hjemxNA

  • Review | Barry – 1ª Temporada

    Review | Barry – 1ª Temporada

    Barry Berkman, é um matador de aluguel na série homônima da HBO, criada por Bill Hader (que interpreta Barry) e Alec Berg, e durante os oito episódios da primeira temporada, iniciada em 2018, Barry se fundamenta no carisma de Hader e numa historia louca de reinvenção de um sujeito de moral baixa.

    O personagem principal passa por um período de tristeza emocional, claramente deprimido, e mesmo com essa parte dramática e séria, é engraçado ver ele transitando sem animo por cenários com pessoas mortas em volta, cujo sangue provindo de perfuração por bala ainda escorre. Junto a isso, há um tédio de ter que ouvir instruções sobre toda sorte de crime, provando que nem no crime a rotina é igualmente maçante. Em meio a miséria existencial, ele encontra um grupo de teatro, e acaba se afeiçoando pela bela Sally Reed (Sarah Goldberg), uma aspirante a atriz e pelo instrutor, Gene Cousineau (Henry Winkler), um diretor muito talentoso, mas também passivo agressivo.

    Barry assume um novo nome, Barry Block, e essa faceta é diferente da que trata de assassinatos e contravenções. Block é calado, resiliente, tem dificuldades de expressar emoções e é passivo, enquanto o Berkman, que lida com seu contratante Monroe Fuches (Stephen Root) e com o chefão do crime checheno  NoHo Hank (Anthony Carrigan). Ver esses dois personagens em um só acaba por ser um comentário metalinguístico mais forte até que o fato da série retratar a busca de atores iniciantes pelo sucesso no mesmo de um seriado recém estreado.

    A mudança brusca de carreira é mostrada de uma forma inteligente e gradativa, não há pressa em mostrar a crise existencial do sujeito que sai (ou tenta sair, reprisando parte dos problemas de O Poderoso Chefão Parte III, da inevitabilidade do destino sangrento) do matadouro humano para os palcos, e além de ter que lidar com seus próprios demônios, com o passado como soldado matador do Afeganistão, com a dúvida sobre seus dotes, se tem talento para dramaturgia.

    Toda a questão sobre seu passado como soldado faz lembrar o ideal presente em Justiceiro – 1ª Temporada e Justiceiro – 2 ª Temporada, quase como um What If do personagem, com a inversão moral, tirando o vigilante implacável para um assassino a sangue frio e contratável. O uso do sobrenome Block não serve só para convencer os pretensos artistas, mas também para mostrar uma nova face sua, embora até o convencimento que ele faz com um dos personagens, seja o de contar a verdade sobre sua própria vida, Cousineau o considera criativo mesmo sem uma atuação que transpirasse verdade. Isso calha numa dificuldade de entender como funciona o procedimento teatral, como digerir o monte de emoções que os homens tem e como traduzir isso na dramaturgia propriamente.

    O programa se baseia muito num humor “desmotivacional”, anti Coach, e nesse ponto, Alec Berg e o próprio Hader acertam muito em seus roteiros. Há um humor que tem um pouco de semelhanças com Silicon Valley, também criada por Alec Berg, embora aqui seja bem mais visceral.

    As partes que mostram fantasias de um futuro adocicado para o protagonista são grotescas, revelam o quão carente era o personagem, contendo semelhanças com uma outra serie humorística, My Name is Earl, especificamente na terceira temporada. Essa condição contrasta com o arrependimento dele em ter um oficio tão violento. Ambas condições o colocam numa posição de possível incel, de descarregar suas más emoções de maneira errática, enquanto não consegue ter qualquer relação, saudável ou não.

    O humor da série não é nada fino, se  baseia no constrangimento e em situações pitorescas, Barry se vê encurralado o tempo inteiro, e eventos simples como os dissabores de um pretenso artista são elevados a enésima potencia, com a diferença que um artista frustrado normalmente é só genioso, e aqui é um sabido sociopata que age de maneira passivo agressiva quando sofre pressão. Os momentos finais, em que ele ajuda Dutches beiram o sensacionalismo de tão grandioso que tudo soa, mas é incrivelmente bem apresentado, e unido a isso, ainda há um número apoteótico, semelhante a um ato teatral, que brinca com o idilico e super doce das fantasias antigas do personagem, encontrando o visceral do seu dia a dia, claro, com um belo gancho, que inclusive dribla os oportunismos e conversa bem com o tom dramático das peças shakesperianas.

    https://www.youtube.com/watch?v=M6TZdk1t8Zo