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Review | Darling in the FranXX

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As vezes tenho a nítida impressão de que o preconceito com animações e quadrinhos japoneses é justificável. A mania que alguns mangakás têm de soterrar suas histórias em poses sensuais, referências sexuais e meninas em trajes sumários é totalmente explicada pela cultura japonesa, menos permissiva num geral do que as culturas ocidentais. Mas isso atrapalha tanto a divulgação dessas séries fora do Japão que, as vezes, adaptações ocidentais poderiam se tornar mais palatáveis algumas excelentes histórias oriundas daquele lado do planeta. Darling in the FranXX é um excelente exemplo disso. Não é um desenho pra você assistir com algum parente na TV da sala, mas se você abstrair todo o fanservice, perceberá uma história que vai muito mais fundo do que o ecchi escancarado em todos os episódios.

No futuro, a humanidade desenvolveu a capacidade de utilizar o magma no centro do planeta como fonte de energia. A utilização dela, entretanto, devastou a natureza e forçou a sociedade a se recolher para o interior de gigantescas estruturas móveis subterrâneas chamadas Colônias, onde as pessoas vivem sem qualquer contato com o mundo exterior. A exploração da energia magma trouxe, também, a aparição de seres que viviam nas profundezas do planeta e que passaram a emergir como grandes inimigos dos seres humanos: os Urrossauros. Para batalhar contra esses seres abissais, o excêntrico doutor Werner Franxx desenvolveu robôs gigantes que só podem ser pilotados por duplas de crianças. Os pilotos desses mechas, denominados parasitas, vivem dentro de abóbodas sobre as cidades subterrâneas, sem qualquer contato com adultos, sempre de prontidão para combater os urrossauros que, ninguém sabe porquê, atacam as colônias. Obedecendo as ordens de um grupo de governantes que nunca viram, os parasitam enfrentam os urrossauros de acordo com as ordens do “papai” na esperança de tornarem-se adultos e ganharem sua passagem para o interior das cidades que protegem, mas a chegada de uma nova criança a um dos esquadrões de parasitas, que é particularmente especial, pode colocar todo o plano das colônias e a humanidade inteira em risco.

Darling in the FranXX, lançado no início de 2018, narra a história do 13º esquadrão de parasitas da APE (a organização chefiada pelo misterioso “papai”). Ao longo dos 24 episódios dessa animação original, o telespectador descobre a história do mundo e dos personagens criados por Code:000 (pseudônimo cuja real identidade nunca foi revelada) e produzidos através da colaboração entre os renomados estúdios Trigger (“Kill la Kill”) e A1 Pictures (do excelente “Fairy Tail”). A história é bem elaborada mas, como eu introduzi no primeiro parágrafo deste review, pode ser necessário um pouco de força de vontade para chegar até ela.

Isso acontece porque desde o character design até o método desenvolvido para pilotar os robôs, praticamente tudo no anime traz alguma referência sexual e foi especialmente elaborado para causar um sentimento de "vergonha alheia" monstruoso. O sistema desenvolvido para utilização do poder máximo dos FranXX, por exemplo, depende de uma garota e um garoto que desenvolvem uma conexão quase literal. O sistema depende de uma pistilo (uma garota que, literalmente, fica de quatro e serve de base para o piloto do robô) e um estame (um garoto que precisa tomar assento atrás da menina e controlar o robô através de manoplas acopladas ao quadril da pistilo). As denominações para as funções dos parasitas são, não por acaso, as mesmas denominações dadas aos órgãos reprodutores das plantas. A primeira vista, o sistema extremamente machista de controle do robô causa desconforto ao espectador, com sequências de conexão meio forçadas e uma playlist bem peculiar de gemidos e acenos dos jovens parasitas durante os combates a bordo das máquinas.

Praticamente tudo, nas sequências de combate, tem alguma conotação sexual.

Mas se por um lado o anime escorrega fortemente no conceito básico por trás dos robôs gigantes, as sequências de ação que aparecem quando os FRANXX batalham contra os urrossauros destaca-se como um ponto bem positivo. Apesar da movimentação bem pouco natural dos robôs, o CGI nas cenas de batalha e principalmente a trilha sonora nos momentos de confronto são bem colocados e embalam de maneira empolgante. O roteiro desenvolvido ao longo dos capítulos também se aprofunda e revela conceitos que vão além dos pontos já destacados. O casal de protagonistas, bem interessantes, se desenvolve de forma madura e mostra uma evolução notável desde os primeiros episódios, demonstrando a real profundidade da trama.

No início do desenho eu mesmo me peguei pensando sobre o que eu estava fazendo enquanto assistia Darling in the FRANXX, e você provavelmente também vai ter alguma dificuldade de se acostumar à crianças tão jovens se colocando em situações como as que o anime propõe. Mas isso tudo se torna secundário quando você entende a real história por trás do ecchi exagerado. Em sua essência, a série conta a história de 10 crianças e sua jornada de amadurecimento enquanto passam por uma adolescência bastante atribulada. Além das várias sequências incômodas, há dezenas de outras cenas extremamente triviais mas que mostram o desenvolvimento do roteiro e deixam claro que o desenho é muito mais do que uma japonezisse com robôs gigantes e menininhas em lycra. O encontro das crianças com sentimentos inexplorados, suas primeiras decepções com o mundo e o evidente amadurecimento delas como seres humanos é uma jornada interessante de acompanhar e, do meio para o final, extremamente emocionante.

O grupo heterogêneo de personagens conta uma belíssima história de amadurecimento que, infelizmente, foi soterrada por uma montanha de ecchi.

Com boas sequências de ação, uma trilha sonora impecável e excelente desenvolvimento de personagens, Darling in the FRANXX demorou alguns episódios, mas despontou como um dos animes  originais mais emocionantes dos últimos anos. Como martelado durante toda a resenha, é importante entender as sequências desnecessariamente sexualizadas como uma manifestação cultural de um anime que não foi pensado para ser consumido por adultos ocidentais. O final um pouco acelerado demais e o trabalho ineficaz com alguns elementos de roteiro na última reta evidenciam esse fato, mas o anime permanece extremamente bem recomendado. Além de uma excelente história de crescimento e desenvolvimento humano, ainda ensina um pouco sobre a indústria cultural japonesa e escancara a diferença cultural entre nós e eles. Apesar do clamor de todos os fãs para uma segunda temporada, não há qualquer indicação dos estúdios acerca de uma nova (e desnecessária) continuação. O anime está disponível, completo e de forma legalizada, no Crunchyroll.

Nicholas Prade

"Prolixo" e "grande amante de Cultura POP" são duas coisas que podem ser ditas sobre mim sem que se incorra em um erro muito grave. Viciado de forma pouco saudável em World of Warcraft, quando encontro tempo para assistir, ler ou jogar alguma outra coisa escrevo minhas opiniões por aqui. :)
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