Quadrinhos

Resenha | Y: O Último Homem – Volume 4

Compartilhar

Para Yorick, O Último Homem, a pergunta acaba sendo sempre a mesma: o que sobra em ti, quando tudo é adversidade? Ele, o último, a vagar por ai, num mundo que não é mais dos homens, cármico ao que sobrou do gênero. Uma Terra de mulheres, que nunca parecem se acertar igual no tempo dos machos, na máxima ironia dessas utopias. A raça humana é errada nascendo ruim ou não, e Yorick, andando junto da Dra. Mann e sua amiga, a agente do governo 355, e viajam por entre seus cacos rumo a respostas. Entre suas leis que já não existem mais. Seu sistema, em chamas, e suas memórias, mais vivas do que eles mesmos. Brian K .Vaughan e Pia Guerra criaram uma saga épica das HQ’s que exclama questões filosóficas muito além da ação e das reviravoltas, sempre pontuais em todos os volumes. O que verte quando estamos totalmente livres? Para muitos, a barbárie, e para outros, a solidão.

E engana-se quem acha que não há barbárie nos pequenos abusos entre as pessoas. Aqui, a jornalista Paloma West ouve os boatos de que um fóssil, ou melhor, um homem desembarcou na Austrália, e não mede esforços para chegar até ele, e garantir o furo jornalístico do ano! A ambição (e inteligência) de Paloma é desmedida, e nem com a ajuda de suas amigas Yorick tem a mínima chance de manter o anonimato. Assim, mesmo mais longo na duração do que poderia ser (eis um dilema na maioria dos volumes da série), o arco Bonecas de Papel discursa habilmente o papel construtivo e quiçá destruidor da mídia nas nossas vidas, e o preço que o ser humano paga por ser um animal social – para o bem, e para o mal. Em meio ao caos e a perseguição, e sem ousar confiar em ninguém, Yorick não desiste de viajar para o Japão, a fim de encontrar o seu macaco raptado, Ampe, antes que seja tarde demais para recuperar o símio que, muito provável, é a chave imunológica à sua sobrevivência.

Mas é no Japão que a coisa pega, e sem ver a quem. Muitos mistérios já começam a ser revelados ao indicar os possíveis desfechos da trama – a narrativa de Vaughan reconhece os momentos perfeitos para desvendar os enigmas construídos pouco a pouco, e o leitor certamente agradece pelo nível da escrita. No arco Dragões de Quimono, as máscaras caem e traidores se expõem, subjugando os desavisados num terrível hotel de Tóquio, repleto de assassinos e mafiosos. O suspense aqui é pesado, rendendo momentos decisivos de pura tensão, redenção e até mesmo horror, para talvez Ampe voltar aos braços do dono – nada mais será normal após esta viagem. E o caminho para o fim já está traçado. Curioso notar como a evolução de Y – O Último Homem se dá, em todas as vertentes da revista, concebendo uma realidade e seus habitantes em constante transformação. A Terra sem homens é tridimensional, sai das páginas e se torna crível nas nossas mentes e corações, enquanto a natureza externa faz, o que ela deve fazer: ficar alheia ao Homem. É nós, por nós mesmos.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
Veja mais posts do Douglas
Compartilhar