Cinema

Crítica | Eu e o Líder da Seita

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O maior ataque terrorista já registrado no Japão ocorreu em 20 de março de 1995. Na ocasião, membros da seita Aum Shinrikyo (Verdade Suprema, em tradução livre) liberaram gás sarin em linhas do metrô de Tóquio. O resultado foi a morte de 13 pessoas e o ferimento de outras mais de 6 mil. Entre os feridos, Atsushi Sakahara, diretor deste Eu e o Líder da Seita.

Sakahara conviveu por mais de 20 anos com problemas neurológicos devido ao atentado. Em 2015, após um ano de negociações, foi autorizado a gravar uma longa conversa com o diretor de Relações Públicas do culto, Araki Hiroshi. É desse diálogo que surge o filme, que acompanha um dia inteiro da dupla conversando num percurso pelos arredores de Tóquio.

Pela própria natureza do encontro entre ambos, é esperada uma tensão mais que latente. A postura de Sakahara é contrastante com a de Hiroshi: enquanto o primeiro é expansivo e provocador, o outro é contido e esquivo. Mas isso não impede de que revelações sejam feitas a partir das investidas do diretor. Hiroshi muito fala sobre sua vida pré-renúncia, isto é, anterior ao ingresso na seita liderada por Shoko Asahara. Em outros momentos, o entrevistado comenta sobre sua relação com o culto por mais de 20 anos e de como encara as ações do grupo após o atentado no metrô.

É inegável que os esforços de Sakahara direcionam-se a uma resposta concreta, seja sincera ou não, da parte de Hiroshi e que digam respeito à moralidade dos ataques e da consciência desse. Apesar de estar encarregado da conversa, da direção e da montagem, o realizador não lança mão de artifícios maniqueístas que definam em adjetivos rasos o segundo personagem em tela. À exceção de seus primeiros minutos, o longa-metragem é desprovido de trilha-sonora, narração em off, imagens de arquivos ou qualquer outra intervenção que não seja a gravação daqueles momentos.

O que tanto o público quanto o diretor descobrem é um personagem complexo, que se mostra multifacetado nas quase duas horas de projeção. Hiroshi transita entre momentos em que chora ao lembrar da família (com a qual cortou relações ao entrar na seita) e que se nega a admitir algum tipo de culpa explícita, mesmo na presença de uma das vítimas diretas daquele março de 1995.

Imageticamente, o filme dá espaço às falas que ocupam as andanças da dupla, acompanhadas de câmeras portáteis e pouco incomodadas com movimentos desordenados. Na maior parte, a tela é preenchida com as duas figuras (que diferem também na aparência: alto e baixo, gordo e magro, roupa amarela e traje azul), mas sabe habilmente quando isolar o executivo da seita no quadro. São momentos que fecham o cerco ao redor de Hiroshi, geralmente após alguma questão incisiva levantada por Sakahara, e que buscam em sua expressão corporal alguma resposta que as palavras não são capazes de proferir. Por outro lado, essas ocasiões também servem ao propósito de investigar aquele personagem como um ser humano dotado de diferentes sentimentos, que variam entre o orgulho e o arrependimento, mas não por caminhos simples e diretos.

O competidor da mostra internacional do festival É Tudo Verdade, como sugere seu subtítulo em inglês (“Um relatório moderno sobre banalidade do mal”, em tradução literal), parte de um pressuposto arendtiano na contemporaneidade, que confunde grandes narrativas com a fragmentação líquida da pós-modernidade, para esboçar um belo retrato sobre a normalidade em convívio com a maldade e vice-versa. Ainda que não apresente a pintura completa de seu retratado, Eu e o Líder da Seita é inteligente o bastante, e confia em seu público para tanto, ao apostar no impacto das perguntas em detrimento da completude das respostas.

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Texto de autoria de Arthur Salles.

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