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  • Resenha | Here, There And Everywhere: Minha Vida Gravando Os Beatles – Geoff Emerick e Howard Massey

    Resenha | Here, There And Everywhere: Minha Vida Gravando Os Beatles – Geoff Emerick e Howard Massey

    here, the and everywhere

    A potência musical da banda The Beatles é uma afirmativa constante mantida pelo tempo. Naturalmente, aliados à sua excelência, há a força como produto cultural que movimenta o mercado. Mesmo após mais de 40 anos do final da banda, ainda há consumidores de informações sobre o grupo lançadas em obras fonográficas de releitura, shows comemorativos e lançamentos literários que apresentam a história do quarteto de Liverpool sob diferentes pontos de vista. Um fato impressionante sobre a potência da música em si.

    Lançado pela Novo Século, Here, There and Everywhere – Minha Vida Gravando os Beatles poderia ser mais um relato jornalístico de pesquisa formal com entrevista e depoimentos sobre a banda. Não fosse seu autor, Geoff Emerick, um dos profissionais que acompanharam boa parte da trajetória musical do FabFour e ainda foi responsável por intensificar a gama sonora produzida em diversos álbuns da banda.

    Em 480 páginas, o livro feito em parceria com o jornalista Howard Massey apresenta ao leitor uma breve biografia de Emerick e seu primeiro contato com a música através de uma coleção de vinis de música clássica e de como, aos 15 anos, já apaixonado por sonoridades, conseguiu um emprego na EMI como assistente de engenheiro de som, um cargo conhecido popularmente como aquele responsável por mexer os botões (oficialmente, é quem ajuda o engenheiro a calibrar o som para as gravações). Os primeiros capítulos pontuam seu amor pela música para compreendermos parte de sua criatividade quando, promovido a engenheiro de som dos Beatles, ele mergulha na função e vai além da sonoridade da época, sendo um precursor de novas texturas musicais.

    Geoff foi convocado oficialmente para trabalhar como engenheiro de som da banda no álbum Revolver. No prefácio da obra, o autor desenvolve uma cena de impacto nos apresentando, de supetão, a primeira vez que John Lennon lhe pediu uma sonoridade específica. Criativo e técnico, o engenheiro conseguiu desenvolver um sistema para dar ao cantor a voz profunda e distante da canção Tomorrow Never Knows.

    A maneira pela qual vê os Beatles é dividida entre o misticismo conhecido pelo público e a convivência nas gravações, que aos poucos proporciona a quebra deste símbolo apresentando as personalidades de cada um. Lennon impaciente e irônico; Ringo Starr tranquilo em seu canto; George Harrison inicialmente incomodado por não ser considerado um membro à altura dos outros; e um Paul McCartney amigável, o músico com o qual Geoff trabalharia em momentos futuros pós-banda.

    Na década de 1960, a captação sonora para um disco era um processo bem diferente do atual. Com poucos recursos na pós-produção, a sonoridade era definida durante as gravações, desde o uso de amplificadores em cada música até a configuração da mesa de som. A genialidade da banda se mantém, mas também o trabalho coletivo feito arduamente – e muitas vezes não aceito por todos – era parte primordial do processo. Muitos dos sons que o engenheiro gravou com a banda eram configurações que, oficialmente, o estúdio proibida. Demonstra-se, assim, a necessidade de quebrar regras ou paradigmas quando há a vontade de ir além, buscar algo a mais. Procurando alternativas e caminhos sonoros, como aproximar microfones mais perto dos aparelhos, microfoná-los em mais de um local, Emerick desenvolveu uma sonoridade própria para os Beatles que, naquele ponto da carreira, além de desejar mais autonomia, desejava experimentar tudo o que fosse possível. Não à toa, muito se questiona hoje sobre a qualidade intrínseca dos músicos, afinal, há uma gama de recursos e programas que transformam qualquer um em uma banda de sucesso.

    Como testemunha ativa da parte histórica que define o grupo, é impossível ouvir as canções após a leitura com a mesma objetividade. O autor comenta o humor interno do estúdio de diversas gravações, as propostas possíveis que foram descartadas, e nos presenteia com detalhes bobos como sons que vazaram despropositadamente e ainda são perceptíveis para ouvidos apurados.

    A edição lançada no país, com tradução de Renato Rezende, traz um prefácio de Elvis Costello, o qual trabalhou com Geoff em um álbum que redefiniu e aprimorou seu som. A linda capa brasileira é diferente da versão original, que possui uma foto dos Beatles em um fundo preto. A escolha de uma foto aérea com o nome do livro em diversos locais não é só condizente com seu título como deixa implícito um personagem oculto que, mesmo distante dos olhos do público, foi parte fundamental na construção das canções que conhecemos bem. O trabalho de Geoff foi premiado com um Grammy técnico por Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, e o engenheiro trabalhou com a banda até o último álbum, Abbey Road. Na década de 1990, também foi responsável por masterizar o material que gerou os três álbuns do Anthology, quando a banda abriu seu baú de takes alternativos e gravou, a partir de fitas de Lennon, duas novas canções.

    Diante da popularidade da banda e da procura sobre informações sobre esta incrível banda, a obra de Geoff, escrita décadas após seu convívio com o grupo, é riquíssima em informação e vai além de uma mera biografia. Talvez carregue a impressão de que seja uma obra somente para iniciados, porém é impossível encontrar um amante da música que negue a importância dos Beatles como banda. Mesmo que haja quem negue, sem dúvida as bandas preferidas desse alguém foram, direta ou indiretamente, influenciadas por Paul, John, George e Ringo.

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    Geoff Emerick

  • Crítica | Arte, Amor e Ilusão

    Crítica | Arte, Amor e Ilusão

    Arte Amor e Ilusão

    Lançado em maio de 2003, ele é um grande contraponto a quantidade excessiva de romances tanto adolescentes quanto os simplesmente açucarados que tomaram conta das produções americanas durante os anos 90. Ele é adaptado de uma peça de teatro escrita e dirigida pelo próprio Neil Labute, que inclusive já foi interpretada no Brasil. The Shape of Things, ou Arte, Amor e Ilusão, traz o elenco original da peça (Rachel Weisz, Paul Rudd, Frederick Weller e Gretchen Mol) para uma produção de cinema que imita o teatro com grandes tomadas de diálogos que abrem espaço para aqueles quatro atores mostrarem diferentes facetas de seus personagens enquanto a trilha do britânico Elvis Costello ilustra toda a película.

    O filme começa com uma mensagem de aviso na música Lovers Walk de Elvis Costello, mas que não está sendo ouvida pelo protagonista. A partir dela acompanhamos Adam (Rudd), um funcionário de um Museu de Artes próximo à faculdade que conhece Evelyn (Weisz), uma estudante que está começando seu mestrado em artes e por algum motivo se interessa pelo jovem completamente desinteressante. Os diálogos entre todos os personagens nos indicam que existe uma passagem de tempo de meses entre muitas das cenas do filme. Vemos isso mais claramente no físico de Rudd, que acaba emagrecendo muito durante essas passagens.

    Em todos os arcos dramáticos do filme é a transformação que dirige o espectador a pensar sobre os assuntos debatidos entre o casal de Rudd e Weisz. A insegurança que guia a vida de Adam o deixou com um casulo fixo nas costas, impedindo-o de sair ou de se aproximar de outras pessoas. Evelyn não só o arranca de lá, mas questiona o valor real das coisas. Tanto na arte quando na primeira cena do filme ela picha um pênis na estátua de Fornicelli, na vida de plástico dos seus amigos, na sua moral e em seu medo em relações, que o tornaram na pessoa que ela conheceu.

    Como o título nacional sugere, existem algumas discussões sobre arte contemporânea (performances, esculturas conceituais e vídeos), mas que só servem para abrir uma lacuna que só será preenchida ao final da história. Os amigos de Adam, Jenny e Phillip, são os primeiros a questionar a relação instantânea e fora de nexo dos dois, reforçando a falta de algo que pudesse atrair uma mulher à personalidade e aparência do amigo. Seu visual, suas roupas e até sua postura com as pessoas muda por pura influência de Evelyn.

    Assim como Alfred Hitchcock, guiar o espectador para o desfecho e manipular as cordas que dão vida à trama fazem parte de um excelente método de narrativa que guiam o espectador até o fim do filme. E é dessa manipulação narrativa que surge o ar de pequena joia que o filme possui. Neil LabuteRachel Weisz são dois Hitchcocks trabalhando juntos, até o fim que chega silencioso, chocante, humilhante e terrível.

    O diálogo final fala mais do que é um filme do que daqueles personagens, além do momento Encontros e Desencontros (que, apesar de provavelmente não ser referência, foi lançado no mesmo ano). Somos apenas Adams de muitas Evelyns que nos encontram aleatoriamente em nossas casas e nos cinemas, e acredito que é um dos poucos romances que exibe um metacomentário sobre a sétima arte.

    O filme traz um contraponto interessante do papel de manipulador ao primeiro filme de Labute, Na Companhia de Homens, o qual o papel de Evelyn era interpretado por Aaron Eckhart e Matt Malloy, e Adam era uma inocente moça interpretada por Stacy Edwards. Não só o papel dos gêneros foram trocados, mas o ponto de vista também. Fica a mensagem que tudo é relativo, transformações são perigosas… E confiar em mulheres também.

    Texto de autoria de Halan Everson.